sábado, 7 de novembro de 2009

LIBERDADE PARA ESPERNEAR

no fundo no fundo
o que mais se leva
a sério
da opinião pública
é sua opinião púbica

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

IGUALDADE RACIAL

os
brancos pobres
são
negros suspeitos
os
negros pobres
são
negros culpados

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ENGRENAGEM

a cadeira de balanço
acompanha o pêndulo
do relógio
o coração embala a cadeira
como um pêndulo
quando o relógio bate
a hora certa
o tempo bate no coração
o pêndulo perde a hora
e a cadeira não balança mais

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

PENUMBRA

Quando a tarde cai
Labaredas de estrelas
Acendem os castiçais
Das mesas colocadas
À beira da solidão
E sobre o sol um abajur
Cor de lua não identifica mais
Os rostos maquiados de luz
E sombra
Corpos despidos pelo vestido
Indecente da imaginação movem-se
Ao mundo como deveria ter sido
Vivido à noite à base de voos
Sem rede esticada sob o trapézio
Até perder o medo de mergulhar
Nos próprios abismos
Na hora do pique da boemia
Quando há um engarrafamento
De Jack Daniel's descendo na contramão
Da corrente sanguinea numa pororoca
Amazônica
Meta metafísica nas artérias de trânsito
Difícil
Que a realidade estará sempre à espreita
Com sua claridade de arrebentar retinas
Feitas sob medida para encarar seus desertos
Antes de a madrugada levantar as cortinas
Dos sonhos
Óculos escuros consertam rostos para qualquer
Espelho

sábado, 29 de agosto de 2009

A LISTA

O melhor do tempo
É passar a duvidar de tudo
A tempo de não se enlamear
Com certezas duvidosas
O melhor do sonho
É mandar a realidade
Com toda sua falta de sentido
Plantar o que falta
Além de batatas
O pior do fracasso
É descobrir que todo céu
Acaba num chão cujo colchão
Será de pedra
O pior da solidão
É aprender o que já se nasce
Sabendo
Se é só
Desde antes desde quando desde sempre
O melhor da religião
É o vinho o pecado e seu heróis
De ficção científica
O melhor da paixão é jamais
Parar pra pensar
Senão o futuro será num curso
De noivos à distância
O melhor da vida
É seguir para lugar nenhum
Como se lá fosse um lugar

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A PARTE QUE ME CABE NESSE LATIFÚNDIO

O procedimento de decolagem
Deve ser antes mesmo
Da certeza de chão
Quem sai para chegar
Tem medo de sair
Quem volta por medo
De se perder
Não se encontrará jamais
Quem foi sem saber se iria
Descobre na ida porque partiu

terça-feira, 18 de agosto de 2009

NAS MÃOS DO VENTO

A qualquer momento
Uma linha imperceptível
Aos olhos e ao coração
Se rompe
E tudo se desmancha no ar
Expulsando os sonhos de seus labirintos
O medo de seus porões
Apenas a solidão
Poderá ficar onde estiver
Por absoluta falta de sentido
Já que o corpo vestirá o manto sagrado
Da liberdade